Dr. Fantástico e a privada de Kubrick – um ensaio sobre Corpo e Utopia

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Vejo uma série de críticas de filmes por aí, e acho tudo muito interessante e tudo mais, mas todas elas (as que vi, pelo menos) transformam o filme analisado, logo, dissecado, em um tecido de significantes e significados. Bom, qual o problema com isso? Definitivamente nenhum, de certo há alguma utilidade nessa dissecação e muito os que fazem, realizam com maestria. Nesse sentido, recomendaria os filmes “O Guia Pervertido do Cinema” e “O Guia Pervertido da Ideologia“, ambos com o filósofo e psicanalista esloveno, Slavoj Zizek em que ele se utiliza de alguns filmes e os simbolismos de suas cenas para nos explicar certos aspectos do Cinema e da Ideologia.

No entanto, nesse espaço proponho algo diferente de uma análise ou uma crítica ao filme,proponho partirmos de certo movimento que o filme provoca em nós, para transpassarmos algumas questões, essa tarefa é árdua, e , por isso, a proposta fica como uma tentativa, sem garantia alguma de êxito.

A obra escolhida para esse ponta-pé inicial é o  filme “Dr. Strange Love, or: how I learned to stop worrying and love the bomb” (Dr. Fantástico ou como eu parei de me preocupar e amar a bomba, como foi traduzido em português-br) de Stanley Kubrick.

O filme é uma belíssima sátira da Guerra Fria e foi produzido em concomitância com o próprio período satirizado, a obra cinematográfica é de 1964. Aqui não pretendo descrever a narrativa, nem lhes contar a história, nesse ponto específico vou destacar um deslocamento feito pelo filme.

São duas cenas, a primeira se passa na “Sala de Guerra”, dentro do Pentágono, onde a alta cúpula do exército e o governo americano decidiriam as principais questões político-militares, o conflito central da narrativa é o fato de que o General Ripper (aquele da foto acima) decidiu (finalmente) esquentar a guerra e iniciar o conflito nuclear, contra a URSS. Nesta cena, outro militar, o  General Tergesen narra o resumo do comunicado do General Ripper para seus subordinados que estavam à bordo do avião responsável pelo primeiro ataque ao inimigo russo, o qual seria:

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“Estão a caminho e não há
como trazê-los de volta.

Para salvar a nossa pátria

e nosso modo de vida…

acione os outros aviões,
senão seremos destruídos…

pela represália inimiga.

Meus garotos vão começar
o ataque com 1400 megatons.

Nada os impedirá.

Vamos entrar em ação.
Não há outra saída.

Se Deus quiser, venceremos…

em paz, com liberdade,

sem medo e com saúde…

pela pureza e essência
dos nossos fluidos naturais.

Deus os abençoe.”

Em outra cena, conversam Mandrake (oficial britânico em intercâmbio nos EUA) e o General Ripper, sobre uma suposta conspiração dos comunistas para o controle dos americanos através da fluoretação da água:

Sem título 2

 Ripper: Para além da fluoretação da água, sabe que estão estudando como pôr flúor no sal…farinha e suco de frutas,sopa, açúcar, leite. E no sorvete das crianças.

Sabe quando a fluoretação começou?

Mandrake:- Receio que não.

R: 1946.1946, Mandrey.

Veja como isso coincide com a conspiração comunista do pós-guerra.Muito óbvio, não? Uma substância estranha colocada nos preciosos… fluídos do corpo, sem a pessoa saber. Certamente sem escolha. Assim trabalha o comunista dedicado.

M:Jack, diga-me…quando descobriu tudo isso?

R:Bem, eu…soube disto durante um ato físico de amor. Sim, uma sensação de profundo cansaço. Um sentimento de vazio. A sorte é que pude interpretar isso corretamente.

Perda de essência.

Posso assegurar que nunca mais aconteceu. As mulheres sentem a minha força…e buscam a essência da vida. Não evito as mulheres… mas lhes nego minha essência.

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Kubrick para nos contar a narrativa aposta mais nos personagens, do que no cenário. Mais no corpo, nos gestos, o que falam e como falam, diferente de um filme típico de guerra com seus devastadores cenários, na obra apresentada os personagens são extremamente ativos em relação ao ambiente.

Também nos anos 60, o teórico Michel Foucault traçava em suas obras inicias seu investimento no estudo do corpo, loucura e a relação entre saber e poder .Em 1975 culminaria na obra “Vigiar e Punir“, a afirmativa clara que o poder se inscrevia sobre e através dos corpos, como uma biotecnologia que possuímos, os corpos se emaranhavam no complexo universo da biopolítica 

Diferente das teorias clássicas, que revestem o Estado como o detentor do poder sobre os sujeitos, Foucault propõem que o mesmo se dá através das relações de poder, no microcosmos de nossas vidas cotidianas. É no palco do nosso dia-a-dia que se desenrolam as forças que moldam, controlam e aprisionam o corpo.

Em Doutor Fantástico, o regime nos é apresentado através dos corpos dos personagens, desde o patético presidente dos EUA ao caricato embaixador russo; o próprio Dr. Fantástico,  um cientista com espasmos nazistas; o profeta do apocalipse General Ripper e o american way of life encarnado no General Tergesen. 

Dr. Fantástico em um de seus espasmos
Dr. Fantástico em um de seus nazi-espasmos, do seu lado direito o embaixador russo

O que falam nossos fluidos?

No livro “Como Ler Lacan” de Slavoj Zizek, o autor dedica-se a pensar na Merda e (da) Ideologia, sobre os três tipos de privada ocidental descreve:

Numa privada alemã tradicional, o buraco por onde a merda desaparece depois que damos descarga fica muito para frente, de modo que ela primeiro fica exposta para que possamos cheirá-la e examiná-la à procura de sinais de alguma doença; na privada francesa típica, o buraco fica bem atrás, de modo que a merda desaparece assim que possível; por fim a privada americana apresenta uma espécie de síntese, uma mediação entre dois polos opostos – a bacia da privada é cheia de água, de modo que a merda flutua ali, visível, mas não para ser inspecionada. (…) A referência às privadas nos permite discernir a mesma tríade no domínio intimíssimo de efetuar a função excrementícia: fascinação contemplativa ambígua; a tentativa apressada de se livrar do excesso desagradável o mais rápido possível; a abordagem pragmática  que trata o excesso como um objeto comum que deve ser descartado de maneira apropriada” (ZIZEK, 2010; p. 26-27).

O conservadorismo alemão, o radicalismo revolucionário francês e o liberalismo inglês, não só são perceptíveis na macro-política europeia, mas também no próprio modo pelo qual nos relacionamos com o que queremos excretar de nossos corpos.

A pureza e essência que evoca o General Ripper nas duas falas destacadas acima, a proteção dos fluidos americanos, a sacralização dos órgãos da América, ao meu ver, são elucidativas para compreendermos a Utopia (o não-lugar).

Pela pureza e essência de nossos fluidos naturais

Pureza e essência, se opõem diretamente à impureza e aparência; bem como a Utopia se opõe à noção de lugar. Ao aclamar a essência e pureza ameaçada pelos comunistas, o profeta Ripper, proclama a  preservação do modo de vida americano, a utopia americana.

Em Thomas Morus a pequena ilha de Utopia aparece como o paraíso cristão na terra, dotado de um  espírito coletivista, a organização desse lugar imaginado foge dos preceitos que começariam a caracterizar a modernidade, o pequeno tratado é de 1516 e como Kubrick, Thomas realiza na arte uma crítica dos tempos que vivia.

No entanto, o que se depreende, fundamentalmente, na obra de Morus é que o não-lugar se localiza, em grande parte, fora do lugar criticado, ou seja, ao criticar o seu próprio tempo, Morus descarta o mundo das aparências em prol da essência cristã, de uma sociedade coletivista.

Diferente do escritor irlandês erradicado na Inglaterra Oscar Wilde que, em 1891 publicara o ensaio ” A Alma do Homem Sob Socialismo” em que afirma:

um mapa-múndi que não inclua a Utopia não é digno de consulta, pois deixa de fora as terras à que a Humanidade está sempre aportando. E nelas aportando, sobe à gávea e, se divisa terras melhores, torna a içar velas. O progresso é a concretização de Utopias.” (WILDE, 2003; p.44)

Ao trazer a ilha de Utopia ao mapa-múndi, Oscar Wilde nega a dicotomia essência e aparência, pureza e impureza. Para o escritor não há outro modo de nos deslocarmos,  se não o de deixarmos nossos fluidos serem invadidos.

Pelo encanamento de Kubrick

Nesse espaço gostaria de destacar um fragmento da poesia “A BUSCA DA FECALIDADE” de Antonin Artaud:

Onde cheira a merda
cheira a ser.
O Homem podia muito bem não cagar,
não abrir a bolsa anal
mas preferiu cagar
assim como preferiu viver
em vez de aceitar viver morto.

Pois para não cagar,
teria que consentir
em não ser,
mas ele não foi capaz de se decidir a perder
o ser,
ou seja, a morrer vivo.

Existe no ser
algo particularmente tentador para o homem
algo que vem a ser justamente

COCÔ. ( AQUI RUGIDO)

Para existir basta abandonar-se ao ser,
mas para viver,
é preciso ser alguém,
e para ser alguém é preciso ter um OSSO,
é preciso não ter medo de mostrar o osso
e arriscar-se a perder a carne.

Homem sempre preferiu a carne
à terra dos ossos.

(…)

E de onde vem essa sórdida abjeção?

Do fato de o mundo ainda não estar formado,
ou de o homem ter apenas uma vaga idéia do que seja o mundo
querendo conservá-la eternamente?

Deve-se ao fato de o homem
ter um belo dia
detido
a idéia do mundo.

Dois caminhos estavam diante dele:
o do infinito de fora,
o do ínfimo de dentro.

E ele escolheu o ínfimo de dentro.
Onde basta espremer
o pâncreas,
a língua,
o ânus,
ou a glande.
E deus, o próprio deus espremeu o movimento.

É deus um ser?
Se o for, é merda.
Se não o for,
ele não existe.
Mas ele não existe,
a não ser como vazio que avança com todas as suas formas
cuja mais perfeita imagem
é o avanço de um incalculável número de piolhos.

“O Sr. Está louco, Sr. Artaud? E então a missa?”

Eu renego o batismo e a missa.
Não existe ato humano,
no plano erótico interno,
que seja mais pernicioso que a descida
do pretenso jesus-cristo nos altares.

Ninguém me acredita
e posso ver o público dando de ombros
mas esse tal cristo é aquele
que diante do percevejo deus
aceitou viver sem corpo,
quando um exército de homens
descendo da cruz,
à qual deus pensou tê-los pregado há muito tempo,
se rebelava,
e armada com ferro,
com sangue,
com fogo e com ossos avançava, desafiando o Invisível
para acabar com o JULGAMENTO DE DEUS.

 ————————————————————————————————————————

O movimento provocado por Kubrick ao expor o corpo dos sujeitos de poder, em sua constante busca pela essência e a conservação de determinados valores, aponta nossa trajetória incessante ao Ideal, à Razão, à Verdade…

Aos poucos nos esvaziamos de nossos corpos, nos organizamos e tal como Ripper queremos que o outro sinta nossa força, mas preservamos nossa essência, o vazio de nós mesmos.

 Queremos que nos sintam  sem sequer sentir-mo-nos.

Sem título***PS: Não necessariamente as páginas indicadas sejam as correspondentes dos livros dos hyperlinks, bem como as traduções podem ser diferentes.  

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