Corpo Sem Face – Ensaio I

Untitled-1 Em julho de 1943, na França, um homem de traços finos, nariz levemente avantajado, cabelos que se recuavam expondo a testa  para depois se alongarem ligeiramente abaixo das orelhas, os lábios finos  compunham com o queixo a face alongada, os olhos eram doces e firmes; vazios e compenetrados. Um corpo magro se punha a escrever ferozmente.

“É infantil e absolutamente mentiroso pretendê-lo, Dr. Latrémolière, e é uma ideia que o Sr. inventou por conta própria, porque o Sr. está persuadido de que sou um Alienado, e é porque o Sr. está diante de mim na posição de Médico do Asilo diante do interno, e porque o médico tem sempre razão contra um prisoneiro, pois lhe basta fazer afirmações, e o doente está sempre errado, pois no seu caso suas afirmações, mesmo sobre fatos entram na categoria de um delírio catalogado, seja qual for a lucidez com que ele tenta exprimi-las.”

Era necessário endereçar-se a esse outro, para então resistir-lhe. Era preciso gritar pelas letras o que murmurava nas sessões de eletrochoque. Não se tratava de lhes fazer vingança ou para lhes sentir culpa, as cartas desse homem e seus cadernos registravam um encontro da poesia com o poeta, não há poesia sem delirar-se, este corpo sabia. Não era a primeira vez que estava em um hospital psiquiátrico, mas era sua primeira estadia no Hospital Psiquiátrico Rodez, escrevera essa carta no primeiro ano de estadia e ficaria ali mais outros dois anos e 58 sessões de eletrochoque.

O homem sem nome

Esse corpo, o qual vemos, tal como espectadores de um grave acidente, pois ainda não acalentados pela história de seu passado ou futuro, é, fundamentalmente, um corpo da Imanência.  Lhes peço a calma necessária para um autópsia ao avesso, não a que, pela Razão, retira e reordena os órgãos, mas aquela que ao desconstruir o corpo, o reconstrói. Tal qual Hilst pelas mãos de seu personagem de “Com os meus olhos de cão”, um matemático e poeta, ao se encontrar com o tal corpo imanente, escreve:

“Vi palavras e números

Círculos, tangentes

Extensos teoremas

Nas costas esguias

De um andarilho de sóis do meio-dia.

Olhou-me entre farrapos:

Números, palavras?

Oh, não senhor, a miséria é que é.

Mas meu muito obrigado

De me pensar a mim um quadro-negro

Pois são apenas chagas nas minhas costas.

Tentei segui-lo.

Entrou num morro de moitas.

Entrei.

Túnel vazio Dando pro todo que caminhei.”

Esse homem, um andarilho da desrazão, chegara até Rodez sem nome. Talvez um nome repousava sobre os prontuários médicos ou um pseudônimo de que havia se valido em escritos anteriores descansava em ensaios e livros, mas ambos correspondiam, igualmente, ao Nada. Em uma carta, anterior à Rodez, escrevia para Cécile Schramme, em 1937:

“De fato, é necessário pensar em batizar esse filho ilegítimo que devo ser, pois não tenho um nome meu”

Há uma latência no Ser, há universos entre Ser e Identidade. Como sou esse nome outro que me chamam? Primeiro, resta ao homem negar quem é, afirmação definidora e definitiva. Para, então, inscrever-se em sua múltipla-singularidade.  A este homem-abismo resta confrontar com Deus, o primeiro Nome, para, tal qual o médico em Rodez anos mais tarde, resistir-lhe. Como em uma apresentação ao seu contrário, escreve em uma carta de 1937:

“Se eu não fosse apenas um homem, diria que vou eu mesmo arriscar a morte, mas há em mim um outro que me adverte sobre o que deve acontecer e me diz que nada tenho a temer. Saibam somente, e é tudo o que posso lhes dizer agora, que daqui a vinte dias eu falarei em Nome mesmo de Deus, no meio de uma tempestade vinda de Deus. Não obterei nenhuma glória disso, infelizmente, pois não me chamarei mais Antonin Artaud, ter-me-ei tornado um outro e o Dever de que sou incumbido é terrível. É terrível, Annie, descobrir de repente quem a gente é e que realmente a gente era um outro, e que esse outro foi Ramsés II no Egito, realmente, Annie, realmente, e que ele foi outros homens na época, todos sobrecarregados de responsabilidades terríveis sustentadas por poderes também terríveis talvez, mas aniquilantes”.


 

Referências:

Com os meus olhos de cão – Hild Hilst.

O nascimento da Poesia: Antonin Artaud – Jean-Michel Rey.

Wikipedia Francesa – http://fr.wikipedia.org/wiki/Antonin_Artaud#S.C3.A9jours_en_h.C3.B4pital_psychiatrique

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