Arquivo mensal: janeiro 2018

Fragmento IV – Nota sobre monstruosidade e natureza

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“Red Embrace” de Agnes Cecile.

O monstro é a superação (Aufheben) da natureza, excedente natural (indeterminável) e não entidade sobrenatural (determinável). A monstruosidade está inscrita na natureza como sua realidade indefinível, sua “parte maldita”. A indefinibilidade do monstro o inscreve como impossível da natureza: “aquilo que não pode ser apreendido (begreift) de nenhuma maneira, que não podemos tocar sem nos dissolver, que é subordinante nomear Deus.” (Bataille, 2017, p.177 – grifos no original). Se recorremos à noção de milagre para nomear o efeito monstruoso dessa dialética da natureza trata-se apenas de uma subordinação do espírito, pela linguagem, ao determinável. A monstruosidade sendo manifestação do impossível no possível e do infinito no finito goza de uma temporalidade momentânea e indeterminável. O sacrifício é o arquétipo da comunicação monstruosa, esse tipo de “comunicação, pela morte, com um além dos seres” (idem) –  ponto extático de gozo. A monstruosidade não é um estado, mas o resultado de sua dissolução momentânea, da morte de um termo. A monstruosidade re-vela a divindade não sem deixar-nos vislumbrar seu barramento: “Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso” (Hilda Hilst).

Referências

BATAILLE, Georges. O culpado…. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
HILST, Hilda. Com meus olhos de cão. Rio de Janeiro: Globo, 2012.