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Corpo Sem Face – Ensaio I

Untitled-1 Em julho de 1943, na França, um homem de traços finos, nariz levemente avantajado, cabelos que se recuavam expondo a testa  para depois se alongarem ligeiramente abaixo das orelhas, os lábios finos  compunham com o queixo a face alongada, os olhos eram doces e firmes; vazios e compenetrados. Um corpo magro se punha a escrever ferozmente.

“É infantil e absolutamente mentiroso pretendê-lo, Dr. Latrémolière, e é uma ideia que o Sr. inventou por conta própria, porque o Sr. está persuadido de que sou um Alienado, e é porque o Sr. está diante de mim na posição de Médico do Asilo diante do interno, e porque o médico tem sempre razão contra um prisoneiro, pois lhe basta fazer afirmações, e o doente está sempre errado, pois no seu caso suas afirmações, mesmo sobre fatos entram na categoria de um delírio catalogado, seja qual for a lucidez com que ele tenta exprimi-las.”

Era necessário endereçar-se a esse outro, para então resistir-lhe. Era preciso gritar pelas letras o que murmurava nas sessões de eletrochoque. Não se tratava de lhes fazer vingança ou para lhes sentir culpa, as cartas desse homem e seus cadernos registravam um encontro da poesia com o poeta, não há poesia sem delirar-se, este corpo sabia. Não era a primeira vez que estava em um hospital psiquiátrico, mas era sua primeira estadia no Hospital Psiquiátrico Rodez, escrevera essa carta no primeiro ano de estadia e ficaria ali mais outros dois anos e 58 sessões de eletrochoque.

O homem sem nome

Esse corpo, o qual vemos, tal como espectadores de um grave acidente, pois ainda não acalentados pela história de seu passado ou futuro, é, fundamentalmente, um corpo da Imanência.  Lhes peço a calma necessária para um autópsia ao avesso, não a que, pela Razão, retira e reordena os órgãos, mas aquela que ao desconstruir o corpo, o reconstrói. Tal qual Hilst pelas mãos de seu personagem de “Com os meus olhos de cão”, um matemático e poeta, ao se encontrar com o tal corpo imanente, escreve:

“Vi palavras e números

Círculos, tangentes

Extensos teoremas

Nas costas esguias

De um andarilho de sóis do meio-dia.

Olhou-me entre farrapos:

Números, palavras?

Oh, não senhor, a miséria é que é.

Mas meu muito obrigado

De me pensar a mim um quadro-negro

Pois são apenas chagas nas minhas costas.

Tentei segui-lo.

Entrou num morro de moitas.

Entrei.

Túnel vazio Dando pro todo que caminhei.”

Esse homem, um andarilho da desrazão, chegara até Rodez sem nome. Talvez um nome repousava sobre os prontuários médicos ou um pseudônimo de que havia se valido em escritos anteriores descansava em ensaios e livros, mas ambos correspondiam, igualmente, ao Nada. Em uma carta, anterior à Rodez, escrevia para Cécile Schramme, em 1937:

“De fato, é necessário pensar em batizar esse filho ilegítimo que devo ser, pois não tenho um nome meu”

Há uma latência no Ser, há universos entre Ser e Identidade. Como sou esse nome outro que me chamam? Primeiro, resta ao homem negar quem é, afirmação definidora e definitiva. Para, então, inscrever-se em sua múltipla-singularidade.  A este homem-abismo resta confrontar com Deus, o primeiro Nome, para, tal qual o médico em Rodez anos mais tarde, resistir-lhe. Como em uma apresentação ao seu contrário, escreve em uma carta de 1937:

“Se eu não fosse apenas um homem, diria que vou eu mesmo arriscar a morte, mas há em mim um outro que me adverte sobre o que deve acontecer e me diz que nada tenho a temer. Saibam somente, e é tudo o que posso lhes dizer agora, que daqui a vinte dias eu falarei em Nome mesmo de Deus, no meio de uma tempestade vinda de Deus. Não obterei nenhuma glória disso, infelizmente, pois não me chamarei mais Antonin Artaud, ter-me-ei tornado um outro e o Dever de que sou incumbido é terrível. É terrível, Annie, descobrir de repente quem a gente é e que realmente a gente era um outro, e que esse outro foi Ramsés II no Egito, realmente, Annie, realmente, e que ele foi outros homens na época, todos sobrecarregados de responsabilidades terríveis sustentadas por poderes também terríveis talvez, mas aniquilantes”.


 

Referências:

Com os meus olhos de cão – Hild Hilst.

O nascimento da Poesia: Antonin Artaud – Jean-Michel Rey.

Wikipedia Francesa – http://fr.wikipedia.org/wiki/Antonin_Artaud#S.C3.A9jours_en_h.C3.B4pital_psychiatrique

A ilusão do Conhecimento, de Mary Douglas à Foucault

Feiticeiro Azande
Feiticeiro Azande

Gostaria de dedicar esse post a uma breve análise, livre de qualquer amarra academicista, de um dos múltiplos aspectos abordados pela antropóloga Mary Douglas no livro “Pureza e Perigo, ensaio sobre a noção de poluição e tabu”, das categorias organizado/ desorganizado. Ou seja, pretendo delinear, através da obra citada, de que maneira compreendemos o mundo que está ao nosso redor? Como classificamos o que ronda e constitui o nosso cotidiano?

Tal qual uma genealogista, Douglas investiga os menores detalhes de diferentes costumes, desde  pequenas tribos africanas à sociedade ocidental, ela examina por miúde como se relacionam o status  de impureza de determinados comportamentos e  como as sociedades observadas adotam estratégias de purificação. Muito embora essa seja a grande discussão antropológica que envolve o livro, especialmente para a Antropologia da Religião, como disse, vou me dedicar ao processo de cognição em si.

Para começar esse primeiro estranhamento do que é impuro, desorganizado, a antropóloga destaca a importância que dois fatores contribuíram pela separação da higiene da religião em nossa cultura, primeiro um fator de diferenciação de nossa sociedade em relação às chamadas “sociedades primitivas” (muitas aspas aqui), a qual não irei me dedicar,  e a um segundo fator que se deve à “descoberta” das bactérias pelos cientistas, no século XIX, como transmissoras de doença. Como destaca a autora:

“Esta grande descoberta esteve na origem da evolução mais radical da medicina. Transformou de tal maneira a nossa existência que hoje nos é difícil pensar na impureza sem evocar de imediato o seu caráter patogênico. E, todavia, é evidente que as nossas ideias de impureza não são assim tão recentes. Devemos fazer um esforço para lembrarmos aquilo que foram há mais de um século e no que consistiam os fundamentos das nossa regras de pureza, antes de serem transformadas pela bacteriologia; numa palavra, há que remontar à época em que ainda não era considerado anti-higiênico cuspir numa escarradeira.” (Douglas, p. 30)

 Bom, talvez você esteja se perguntando (ou não) o que essa noção de higiene e impureza tem a ver com o nosso processo de cognição, de conhecimento do mundo? A essa pergunta a pensadora responde:

“Quando tivermos abstraído a patogenia e a higiene das nossas ideias sobre a impureza, ficaremos com a velha definição nas mãos: qualquer coisa que não está no seu lugar. Este ponto de vista é muito fecundo. Implica, por um lado, a existência de um conjunto de relações ordenadas e, por outro, a subversão desta ordem. A impureza nunca é um fenômeno único, isolado: Onde houver impureza, há sistema. Ela é o subproduto de uma organização e de uma classificação da matéria, na medida em que ordenar pressupõe repelir os elementos não apropriados. Esta interpretação da impureza conduz-nos diretamente ao  domínio simbólico. Pressentimos assim a existência de uma relação mais evidente com os sistemas simbólicos de pureza.” (Douglas, p. 30 – grifo meu)

O que isso quer dizer?

Isso significa que ao classificarmos algo como sujeira, ou impuro, estamos “automaticamente” elencando determinados comportamentos dentro de uma hierarquia de valores, como puros ou mais apropriados. Continua a autora:

“Concebemos a impureza como uma espécie de compêndio de elementos repelidos pelos nossos sistemas ordenados. A impureza é uma ideia relativa. Estes sapatos não são impuros em si mesmos, mas é impuro pô-los sobre a mesa de jantar; estes alimentos não são impuros em si, mas é impuro deixar os utensílios de cozinha num quarto de dormir ou salpicos de comida num casaco;(…)Em suma, o nosso comportamento face à poluição consiste em condenar qualquer objeto ou qualquer ideia susceptível de lançar confusão ou de contradizer as nossas preciosas classificações” (Douglas, ps. 30 e 31)

E qual a implicação disso?

A implicação dessa estrutura racional de cognição é a nossa reificação (naturalização) do nosso próprio sistema de pensamento, se é que podemos utilizar essa expressão para se referir a categoria pensamento, ou nossa estrutura consciente (um pouco melhor, talvez?). Nesse sentido, complementa a antropóloga:

“À medida que o tempo passa e que acumulamos experiências, investimos cada vez mais no nosso sistema de etiquetas. Tornamo-nos parciais, conservadores, o que nos dá confiança. Pode acontecer que, num dado momento, tenhamos de modificar a estrutura das nossas suposições para alojar novas experiências. Mas quanto mais compatível a nossa experiência for com o nosso passado, mais confiança teremos nas nossas suposições. Ignoramos ou deformamos os fatos incômodos que se recusam a conformar ao esquema, para que não venham perturbar as nossas ideias preconcebidas. No conjunto, tudo o que registramos está já selecionado e organizado no próprio momento da percepção. Partilhamos com outros animais este mecanismo de filtragem que, à partida, só deixa passar as sensações de que nos sabemos servir.” (Douglas, p. 31)

E as experiências que não se encaixam nesse filtro?

Tais experiências seriam consideradas ambíguas ou anômalas. “Uma anomalia é um elemento que não se insere numa dada série ou num dado conjunto; a ambiguidade caracteriza os enunciados que se podem interpretar de duas maneiras.” (Douglas p.32)

 Ainda nesse sentido, a autora aponta que normalmente lidamos de duas maneiras com as anomalias “Negativamente, podemos ignorá-las, percebê-las, ou ainda percebê-las e condená-las. Positivamente, podemos enfrentar deliberadamente a anomalia e tentar criar uma nova ordem do real onde a anomalia se possa inserir.” (Douglas p.32).

A questão central, portanto, é que essa ” estrutura consciente” não seria algo universal, mas sim construída social e culturalmente. Aliás, em uma passagem significativa do livro, a antropóloga desconstrói as análises psicanalíticas das sociedades não-ocidentais que posicionariam determinados povos tribais em um estágio característico da infância ocidental, um posicionamento um tanto quanto evolucionista: nós ocidentais seríamos maduros e, eretos, somos capazes de analisar melhor esses povos recém-nascidos da Cultura.

Justamente por ser uma construção social, ainda que nada impeça do próprio indivíduo reestruturar uma “nova ordem do real onde a anomalia se possa inserir” (Douglas, p.32), herdamos essa estrutura de classificação e a naturalizamos socialmente, como algo normal, “Por fim e sobretudo, a cultura exerce uma certa autoridade; cada um se conforma porque os outros também o fazem.” (Douglas, p.33).

Já em relação ao ambíguo, a cultura procuraria reduzi-lo

“por uma ou por outra das interpretações possíveis. Por exemplo, a linha de demarcação que separa os seres humanos dos animais é ameaçada cada vez que nasce um monstro. Será restabelecida desde que se atribua a este fenômeno uma determinada etiqueta. Assim, os Nuer [confederação de tribos  localizadas no sul do Sudão e no oeste da Etiópia] consideram os nascimentos monstruosos como bebês hipopótamos dados à luz acidentalmente entre os humanos. E uma vez o fenômeno devidamente classificado, eles sabem o que há a fazer: repor delicadamente o pequeno monstro no seu lugar, ou seja, no rio (E. E. Evans-Pritchard, 1956, p. 84).” (Douglas, p.33)

 No entanto, o ambíguo pode ocupar outras posições que não necessariamente negativas, na arte, por exemplo, o ambíguo apareceria com um fator de provocação estética, Mary Douglas destaca que

” Uma escultura é muito interessante por se poder interpretar seja como uma paisagem seja como um nu reclinado. Ehrenzweig chegou ao ponto de afirmar que as obras de arte nos provocam prazer porque nos permitem ir para além das estruturas explícitas da nossa experiência normal. O prazer estético dimanaria da percepção de formas inarticuladas.” (Douglas, p.32 -grifo meu).

 A figura do ambíguo logo se caracterizaria enquanto um ponto de não articulação. Se  para o anômalo, ao identificamos como tal, investindo-o de poder e perigo, somos impelidos a exercer um poder em contrapartida, seja para discipliná-lo (reinserindo-o, agora ajustado, em nossa estrutura de classificação), seja para desclassificá-lo. Para o ambíguo, ou o reduzimos a um significado que faça sentido, ou somos atravessados pela sua força, ainda que tentemos miná-la.

Afinal, não são as feiticeiras ambíguas?

As feiticeiras em Macbeth, a famosa peça teatral de Shakespeare, se caracterizam justamente por essa ambiguidade, trariam elas bom ou mau presságio? Essa posição inarticulada das feiticeiras, gera tanto em Macbeth, quanto ao longo de toda peça uma duplicidade de sentidos, se em um momento é confirmado o desejo do protagonista em ser rei, em outro  a consolidação do seu desejo é desacreditada. A própria fala dessas personagens mágicas contém essa ambiguidade:

“Terceira Feiticeira – Tu engendrarás reis, embora nunca o sejas(…)” (Shakespeare, p.124).

 O próprio Macbeth se refere às feiticeiras, como “oráculos imperfeitos”, o que enfatizaria ainda mais esse caráter das personagens.

Identidade,  Poder e Pensamento

Não desejo me estender muito nesse post, tanto a obra de Mary Douglas, quanto as reflexões provocadas pela leitura, dão pano para manga. Todavia, destaco a relação implicada entre Identidade e Poder.  O filósofo Claudio Ulpiano já destacava que para Nietzsche (e Foucault, teóricos que uso como referência, e estou direcionando meus estudos nesse sentido)  o poder “não é uma substância, é uma relação. Então, onde houver relação e forças sempre emerge o poder. O poder não é uma unidade, não é uma coisa em si mesma. Não há o poder como unidade, só há poder como relação ― como essa relação de forças” (Ulpiano;  Nietzsche: a individuação e a identidade, ou a conquista da diferença; Aula de 20.08.1989)

Portanto, a relação entre as forças de classificação e desclassificação, constituem uma relação de poder da Identidade, conhecemos, identificamos para exercer um poder sobre aquilo e, como visto, a dificuldade na identificação implica em um aumento de forças em direção ao domínio daquilo/daquele desconhecido.

Nesse sentido, o próprio conhecimento tal como foi evidenciado, seria uma ilusão, temos uma ilusão do conhecido que se constituiria por uma disputa de forças. O objeto conhecido é aceito como real e se inscreve naquela estrutura de comportamento admissível, desde que tenha perpassado pelo crivo dessa disputa de forças.

“― Qual é a natureza humana? Nenhuma; não há natureza humana! A natureza humana é uma forma, gerada por determinadas relações de força. As relações de força geraram aquela forma. Basta haver a modificação dessas relações de forças, que aquela forma desaparece… imediatamente! Nada a sustenta: nada! Ela é precária por origem; porque qualquer forma é precária. QUALQUER FORMA É PRECÁRIA! A ameaça das forças é permanente; e essas forças não podem ser entendidas como leis ou princípios: elas são o reino do ACASO.”Ulpiano;  Nietzsche: a individuação e a identidade, ou a conquista da diferença; Aula de 20.08.1989)

 Diante do desconhecido, nos frustramos e desenvolvemos um maquinário de poder, de dominação, damos sedativos aos loucos e aos nossos delírios, nos tornamos indiferentes.  Ao investir em nossa capacidade de identificação somos capazes de normalizar “a norma não tem por função excluir, rejeitar. Ao contrário, ela está sempre ligada a uma técnica positiva de intervenção e de transformação, a uma espécie de poder normativo” (Foucault, p.43), incluímos o exótico às margens.

Sendo assim, o “poder não é ligado ao desconhecimento, mas que, ao contrário, só pode funcionar graças a formação de um saber, que é pare ele tanto um efeito quanto uma condição de exercício” (Foucault, p.45). Configura-se o lema do homem moderno, especialmente no período neoclássico, que perdura até hoje: conhecer para poder.

Bibliografia:

Claudio Ulpiano –  Nietzsche: a individuação e a identidade, ou a conquista da diferença; Aula de 20.08.1989

Foucault – Os Anormais

Mary Douglas – Pureza e Perigo

William Shakespeare  – Macbeth

***As referências de páginas não são, necessariamente, referentes às versões das obras ofertadas no post.

PS: Sobre o assunto Indico o vídeo do filósofo Luiz Fuganti->

Dr. Fantástico e a privada de Kubrick – um ensaio sobre Corpo e Utopia

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Vejo uma série de críticas de filmes por aí, e acho tudo muito interessante e tudo mais, mas todas elas (as que vi, pelo menos) transformam o filme analisado, logo, dissecado, em um tecido de significantes e significados. Bom, qual o problema com isso? Definitivamente nenhum, de certo há alguma utilidade nessa dissecação e muito os que fazem, realizam com maestria. Nesse sentido, recomendaria os filmes “O Guia Pervertido do Cinema” e “O Guia Pervertido da Ideologia“, ambos com o filósofo e psicanalista esloveno, Slavoj Zizek em que ele se utiliza de alguns filmes e os simbolismos de suas cenas para nos explicar certos aspectos do Cinema e da Ideologia.

No entanto, nesse espaço proponho algo diferente de uma análise ou uma crítica ao filme,proponho partirmos de certo movimento que o filme provoca em nós, para transpassarmos algumas questões, essa tarefa é árdua, e , por isso, a proposta fica como uma tentativa, sem garantia alguma de êxito.

A obra escolhida para esse ponta-pé inicial é o  filme “Dr. Strange Love, or: how I learned to stop worrying and love the bomb” (Dr. Fantástico ou como eu parei de me preocupar e amar a bomba, como foi traduzido em português-br) de Stanley Kubrick.

O filme é uma belíssima sátira da Guerra Fria e foi produzido em concomitância com o próprio período satirizado, a obra cinematográfica é de 1964. Aqui não pretendo descrever a narrativa, nem lhes contar a história, nesse ponto específico vou destacar um deslocamento feito pelo filme.

São duas cenas, a primeira se passa na “Sala de Guerra”, dentro do Pentágono, onde a alta cúpula do exército e o governo americano decidiriam as principais questões político-militares, o conflito central da narrativa é o fato de que o General Ripper (aquele da foto acima) decidiu (finalmente) esquentar a guerra e iniciar o conflito nuclear, contra a URSS. Nesta cena, outro militar, o  General Tergesen narra o resumo do comunicado do General Ripper para seus subordinados que estavam à bordo do avião responsável pelo primeiro ataque ao inimigo russo, o qual seria:

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“Estão a caminho e não há
como trazê-los de volta.

Para salvar a nossa pátria

e nosso modo de vida…

acione os outros aviões,
senão seremos destruídos…

pela represália inimiga.

Meus garotos vão começar
o ataque com 1400 megatons.

Nada os impedirá.

Vamos entrar em ação.
Não há outra saída.

Se Deus quiser, venceremos…

em paz, com liberdade,

sem medo e com saúde…

pela pureza e essência
dos nossos fluidos naturais.

Deus os abençoe.”

Em outra cena, conversam Mandrake (oficial britânico em intercâmbio nos EUA) e o General Ripper, sobre uma suposta conspiração dos comunistas para o controle dos americanos através da fluoretação da água:

Sem título 2

 Ripper: Para além da fluoretação da água, sabe que estão estudando como pôr flúor no sal…farinha e suco de frutas,sopa, açúcar, leite. E no sorvete das crianças.

Sabe quando a fluoretação começou?

Mandrake:- Receio que não.

R: 1946.1946, Mandrey.

Veja como isso coincide com a conspiração comunista do pós-guerra.Muito óbvio, não? Uma substância estranha colocada nos preciosos… fluídos do corpo, sem a pessoa saber. Certamente sem escolha. Assim trabalha o comunista dedicado.

M:Jack, diga-me…quando descobriu tudo isso?

R:Bem, eu…soube disto durante um ato físico de amor. Sim, uma sensação de profundo cansaço. Um sentimento de vazio. A sorte é que pude interpretar isso corretamente.

Perda de essência.

Posso assegurar que nunca mais aconteceu. As mulheres sentem a minha força…e buscam a essência da vida. Não evito as mulheres… mas lhes nego minha essência.

___________________________________________________________________________ 

Kubrick para nos contar a narrativa aposta mais nos personagens, do que no cenário. Mais no corpo, nos gestos, o que falam e como falam, diferente de um filme típico de guerra com seus devastadores cenários, na obra apresentada os personagens são extremamente ativos em relação ao ambiente.

Também nos anos 60, o teórico Michel Foucault traçava em suas obras inicias seu investimento no estudo do corpo, loucura e a relação entre saber e poder .Em 1975 culminaria na obra “Vigiar e Punir“, a afirmativa clara que o poder se inscrevia sobre e através dos corpos, como uma biotecnologia que possuímos, os corpos se emaranhavam no complexo universo da biopolítica 

Diferente das teorias clássicas, que revestem o Estado como o detentor do poder sobre os sujeitos, Foucault propõem que o mesmo se dá através das relações de poder, no microcosmos de nossas vidas cotidianas. É no palco do nosso dia-a-dia que se desenrolam as forças que moldam, controlam e aprisionam o corpo.

Em Doutor Fantástico, o regime nos é apresentado através dos corpos dos personagens, desde o patético presidente dos EUA ao caricato embaixador russo; o próprio Dr. Fantástico,  um cientista com espasmos nazistas; o profeta do apocalipse General Ripper e o american way of life encarnado no General Tergesen. 

Dr. Fantástico em um de seus espasmos
Dr. Fantástico em um de seus nazi-espasmos, do seu lado direito o embaixador russo

O que falam nossos fluidos?

No livro “Como Ler Lacan” de Slavoj Zizek, o autor dedica-se a pensar na Merda e (da) Ideologia, sobre os três tipos de privada ocidental descreve:

Numa privada alemã tradicional, o buraco por onde a merda desaparece depois que damos descarga fica muito para frente, de modo que ela primeiro fica exposta para que possamos cheirá-la e examiná-la à procura de sinais de alguma doença; na privada francesa típica, o buraco fica bem atrás, de modo que a merda desaparece assim que possível; por fim a privada americana apresenta uma espécie de síntese, uma mediação entre dois polos opostos – a bacia da privada é cheia de água, de modo que a merda flutua ali, visível, mas não para ser inspecionada. (…) A referência às privadas nos permite discernir a mesma tríade no domínio intimíssimo de efetuar a função excrementícia: fascinação contemplativa ambígua; a tentativa apressada de se livrar do excesso desagradável o mais rápido possível; a abordagem pragmática  que trata o excesso como um objeto comum que deve ser descartado de maneira apropriada” (ZIZEK, 2010; p. 26-27).

O conservadorismo alemão, o radicalismo revolucionário francês e o liberalismo inglês, não só são perceptíveis na macro-política europeia, mas também no próprio modo pelo qual nos relacionamos com o que queremos excretar de nossos corpos.

A pureza e essência que evoca o General Ripper nas duas falas destacadas acima, a proteção dos fluidos americanos, a sacralização dos órgãos da América, ao meu ver, são elucidativas para compreendermos a Utopia (o não-lugar).

Pela pureza e essência de nossos fluidos naturais

Pureza e essência, se opõem diretamente à impureza e aparência; bem como a Utopia se opõe à noção de lugar. Ao aclamar a essência e pureza ameaçada pelos comunistas, o profeta Ripper, proclama a  preservação do modo de vida americano, a utopia americana.

Em Thomas Morus a pequena ilha de Utopia aparece como o paraíso cristão na terra, dotado de um  espírito coletivista, a organização desse lugar imaginado foge dos preceitos que começariam a caracterizar a modernidade, o pequeno tratado é de 1516 e como Kubrick, Thomas realiza na arte uma crítica dos tempos que vivia.

No entanto, o que se depreende, fundamentalmente, na obra de Morus é que o não-lugar se localiza, em grande parte, fora do lugar criticado, ou seja, ao criticar o seu próprio tempo, Morus descarta o mundo das aparências em prol da essência cristã, de uma sociedade coletivista.

Diferente do escritor irlandês erradicado na Inglaterra Oscar Wilde que, em 1891 publicara o ensaio ” A Alma do Homem Sob Socialismo” em que afirma:

um mapa-múndi que não inclua a Utopia não é digno de consulta, pois deixa de fora as terras à que a Humanidade está sempre aportando. E nelas aportando, sobe à gávea e, se divisa terras melhores, torna a içar velas. O progresso é a concretização de Utopias.” (WILDE, 2003; p.44)

Ao trazer a ilha de Utopia ao mapa-múndi, Oscar Wilde nega a dicotomia essência e aparência, pureza e impureza. Para o escritor não há outro modo de nos deslocarmos,  se não o de deixarmos nossos fluidos serem invadidos.

Pelo encanamento de Kubrick

Nesse espaço gostaria de destacar um fragmento da poesia “A BUSCA DA FECALIDADE” de Antonin Artaud:

Onde cheira a merda
cheira a ser.
O Homem podia muito bem não cagar,
não abrir a bolsa anal
mas preferiu cagar
assim como preferiu viver
em vez de aceitar viver morto.

Pois para não cagar,
teria que consentir
em não ser,
mas ele não foi capaz de se decidir a perder
o ser,
ou seja, a morrer vivo.

Existe no ser
algo particularmente tentador para o homem
algo que vem a ser justamente

COCÔ. ( AQUI RUGIDO)

Para existir basta abandonar-se ao ser,
mas para viver,
é preciso ser alguém,
e para ser alguém é preciso ter um OSSO,
é preciso não ter medo de mostrar o osso
e arriscar-se a perder a carne.

Homem sempre preferiu a carne
à terra dos ossos.

(…)

E de onde vem essa sórdida abjeção?

Do fato de o mundo ainda não estar formado,
ou de o homem ter apenas uma vaga idéia do que seja o mundo
querendo conservá-la eternamente?

Deve-se ao fato de o homem
ter um belo dia
detido
a idéia do mundo.

Dois caminhos estavam diante dele:
o do infinito de fora,
o do ínfimo de dentro.

E ele escolheu o ínfimo de dentro.
Onde basta espremer
o pâncreas,
a língua,
o ânus,
ou a glande.
E deus, o próprio deus espremeu o movimento.

É deus um ser?
Se o for, é merda.
Se não o for,
ele não existe.
Mas ele não existe,
a não ser como vazio que avança com todas as suas formas
cuja mais perfeita imagem
é o avanço de um incalculável número de piolhos.

“O Sr. Está louco, Sr. Artaud? E então a missa?”

Eu renego o batismo e a missa.
Não existe ato humano,
no plano erótico interno,
que seja mais pernicioso que a descida
do pretenso jesus-cristo nos altares.

Ninguém me acredita
e posso ver o público dando de ombros
mas esse tal cristo é aquele
que diante do percevejo deus
aceitou viver sem corpo,
quando um exército de homens
descendo da cruz,
à qual deus pensou tê-los pregado há muito tempo,
se rebelava,
e armada com ferro,
com sangue,
com fogo e com ossos avançava, desafiando o Invisível
para acabar com o JULGAMENTO DE DEUS.

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O movimento provocado por Kubrick ao expor o corpo dos sujeitos de poder, em sua constante busca pela essência e a conservação de determinados valores, aponta nossa trajetória incessante ao Ideal, à Razão, à Verdade…

Aos poucos nos esvaziamos de nossos corpos, nos organizamos e tal como Ripper queremos que o outro sinta nossa força, mas preservamos nossa essência, o vazio de nós mesmos.

 Queremos que nos sintam  sem sequer sentir-mo-nos.

Sem título***PS: Não necessariamente as páginas indicadas sejam as correspondentes dos livros dos hyperlinks, bem como as traduções podem ser diferentes.  

Ensaio anti-um

Por onde começar?

Essa é a primeira pergunta que me ocorre e, como todas as perguntas “fundamentais”, não serve para absolutamente nada. Não há começo e aqui não pretendo dar início a nada, esse site surge mais de um devaneio particular, do que qualquer pretensão intelectualóide que seja.

Escrevo, pois não saberia fazer outra coisa, trata-se, em última instância, de uma vontade descomunal de gritar aos berros e a plenos pulmões o que não digo e, talvez, sequer tenha coragem de dizer. Afinal somos todos homens do subsolo e aqui estou eu escrevinhando algumas notas.

Importante dizer, se é que não falo às paredes, que não há o desejo aqui de grandes revelações ou de que algo seja levado a sério, as letras que aqui lanço não se pretendem acadêmicas, informativas ou qualquer coisa que o valha.

Em Distrópicos, posiciono-me no avesso da distopia, um deslocamento da própria negação do ideal, um outro lugar da Razão. Tudo  aqui é tentativa, vivência e experimentação, somente o delírio permite a passagem suave pela concretude do Real.

Como diria Artaud, em um trecho de sua transmissão radiofônica “Para Acabar Com o Julgamento de Deus”:

O homem é enfermo porque é mal construído.
Temos que nos decidir a desnudá-lo para raspar esse animalúculo que o corrói mortalmente,
deus
e juntamente com deus
os seus órgãos

Se quiserem, podem meter-me numa camisa de força
mas não existe coisa mais inútil que um órgão.

Quando tiverem conseguido um corpo sem órgãos,
então o terão libertado dos seus automatismos
e devolvido sua verdadeira liberdade.
Então poderão ensiná-lo a dançar às avessas
como no delírio dos bailes populares
e esse avesso será
seu verdadeiro lugar.

Escritos de Antonin Artaud, L&PM, 1983, trad. Cláudio Willer.