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A ilusão do Conhecimento, de Mary Douglas à Foucault

Feiticeiro Azande
Feiticeiro Azande

Gostaria de dedicar esse post a uma breve análise, livre de qualquer amarra academicista, de um dos múltiplos aspectos abordados pela antropóloga Mary Douglas no livro “Pureza e Perigo, ensaio sobre a noção de poluição e tabu”, das categorias organizado/ desorganizado. Ou seja, pretendo delinear, através da obra citada, de que maneira compreendemos o mundo que está ao nosso redor? Como classificamos o que ronda e constitui o nosso cotidiano?

Tal qual uma genealogista, Douglas investiga os menores detalhes de diferentes costumes, desde  pequenas tribos africanas à sociedade ocidental, ela examina por miúde como se relacionam o status  de impureza de determinados comportamentos e  como as sociedades observadas adotam estratégias de purificação. Muito embora essa seja a grande discussão antropológica que envolve o livro, especialmente para a Antropologia da Religião, como disse, vou me dedicar ao processo de cognição em si.

Para começar esse primeiro estranhamento do que é impuro, desorganizado, a antropóloga destaca a importância que dois fatores contribuíram pela separação da higiene da religião em nossa cultura, primeiro um fator de diferenciação de nossa sociedade em relação às chamadas “sociedades primitivas” (muitas aspas aqui), a qual não irei me dedicar,  e a um segundo fator que se deve à “descoberta” das bactérias pelos cientistas, no século XIX, como transmissoras de doença. Como destaca a autora:

“Esta grande descoberta esteve na origem da evolução mais radical da medicina. Transformou de tal maneira a nossa existência que hoje nos é difícil pensar na impureza sem evocar de imediato o seu caráter patogênico. E, todavia, é evidente que as nossas ideias de impureza não são assim tão recentes. Devemos fazer um esforço para lembrarmos aquilo que foram há mais de um século e no que consistiam os fundamentos das nossa regras de pureza, antes de serem transformadas pela bacteriologia; numa palavra, há que remontar à época em que ainda não era considerado anti-higiênico cuspir numa escarradeira.” (Douglas, p. 30)

 Bom, talvez você esteja se perguntando (ou não) o que essa noção de higiene e impureza tem a ver com o nosso processo de cognição, de conhecimento do mundo? A essa pergunta a pensadora responde:

“Quando tivermos abstraído a patogenia e a higiene das nossas ideias sobre a impureza, ficaremos com a velha definição nas mãos: qualquer coisa que não está no seu lugar. Este ponto de vista é muito fecundo. Implica, por um lado, a existência de um conjunto de relações ordenadas e, por outro, a subversão desta ordem. A impureza nunca é um fenômeno único, isolado: Onde houver impureza, há sistema. Ela é o subproduto de uma organização e de uma classificação da matéria, na medida em que ordenar pressupõe repelir os elementos não apropriados. Esta interpretação da impureza conduz-nos diretamente ao  domínio simbólico. Pressentimos assim a existência de uma relação mais evidente com os sistemas simbólicos de pureza.” (Douglas, p. 30 – grifo meu)

O que isso quer dizer?

Isso significa que ao classificarmos algo como sujeira, ou impuro, estamos “automaticamente” elencando determinados comportamentos dentro de uma hierarquia de valores, como puros ou mais apropriados. Continua a autora:

“Concebemos a impureza como uma espécie de compêndio de elementos repelidos pelos nossos sistemas ordenados. A impureza é uma ideia relativa. Estes sapatos não são impuros em si mesmos, mas é impuro pô-los sobre a mesa de jantar; estes alimentos não são impuros em si, mas é impuro deixar os utensílios de cozinha num quarto de dormir ou salpicos de comida num casaco;(…)Em suma, o nosso comportamento face à poluição consiste em condenar qualquer objeto ou qualquer ideia susceptível de lançar confusão ou de contradizer as nossas preciosas classificações” (Douglas, ps. 30 e 31)

E qual a implicação disso?

A implicação dessa estrutura racional de cognição é a nossa reificação (naturalização) do nosso próprio sistema de pensamento, se é que podemos utilizar essa expressão para se referir a categoria pensamento, ou nossa estrutura consciente (um pouco melhor, talvez?). Nesse sentido, complementa a antropóloga:

“À medida que o tempo passa e que acumulamos experiências, investimos cada vez mais no nosso sistema de etiquetas. Tornamo-nos parciais, conservadores, o que nos dá confiança. Pode acontecer que, num dado momento, tenhamos de modificar a estrutura das nossas suposições para alojar novas experiências. Mas quanto mais compatível a nossa experiência for com o nosso passado, mais confiança teremos nas nossas suposições. Ignoramos ou deformamos os fatos incômodos que se recusam a conformar ao esquema, para que não venham perturbar as nossas ideias preconcebidas. No conjunto, tudo o que registramos está já selecionado e organizado no próprio momento da percepção. Partilhamos com outros animais este mecanismo de filtragem que, à partida, só deixa passar as sensações de que nos sabemos servir.” (Douglas, p. 31)

E as experiências que não se encaixam nesse filtro?

Tais experiências seriam consideradas ambíguas ou anômalas. “Uma anomalia é um elemento que não se insere numa dada série ou num dado conjunto; a ambiguidade caracteriza os enunciados que se podem interpretar de duas maneiras.” (Douglas p.32)

 Ainda nesse sentido, a autora aponta que normalmente lidamos de duas maneiras com as anomalias “Negativamente, podemos ignorá-las, percebê-las, ou ainda percebê-las e condená-las. Positivamente, podemos enfrentar deliberadamente a anomalia e tentar criar uma nova ordem do real onde a anomalia se possa inserir.” (Douglas p.32).

A questão central, portanto, é que essa ” estrutura consciente” não seria algo universal, mas sim construída social e culturalmente. Aliás, em uma passagem significativa do livro, a antropóloga desconstrói as análises psicanalíticas das sociedades não-ocidentais que posicionariam determinados povos tribais em um estágio característico da infância ocidental, um posicionamento um tanto quanto evolucionista: nós ocidentais seríamos maduros e, eretos, somos capazes de analisar melhor esses povos recém-nascidos da Cultura.

Justamente por ser uma construção social, ainda que nada impeça do próprio indivíduo reestruturar uma “nova ordem do real onde a anomalia se possa inserir” (Douglas, p.32), herdamos essa estrutura de classificação e a naturalizamos socialmente, como algo normal, “Por fim e sobretudo, a cultura exerce uma certa autoridade; cada um se conforma porque os outros também o fazem.” (Douglas, p.33).

Já em relação ao ambíguo, a cultura procuraria reduzi-lo

“por uma ou por outra das interpretações possíveis. Por exemplo, a linha de demarcação que separa os seres humanos dos animais é ameaçada cada vez que nasce um monstro. Será restabelecida desde que se atribua a este fenômeno uma determinada etiqueta. Assim, os Nuer [confederação de tribos  localizadas no sul do Sudão e no oeste da Etiópia] consideram os nascimentos monstruosos como bebês hipopótamos dados à luz acidentalmente entre os humanos. E uma vez o fenômeno devidamente classificado, eles sabem o que há a fazer: repor delicadamente o pequeno monstro no seu lugar, ou seja, no rio (E. E. Evans-Pritchard, 1956, p. 84).” (Douglas, p.33)

 No entanto, o ambíguo pode ocupar outras posições que não necessariamente negativas, na arte, por exemplo, o ambíguo apareceria com um fator de provocação estética, Mary Douglas destaca que

” Uma escultura é muito interessante por se poder interpretar seja como uma paisagem seja como um nu reclinado. Ehrenzweig chegou ao ponto de afirmar que as obras de arte nos provocam prazer porque nos permitem ir para além das estruturas explícitas da nossa experiência normal. O prazer estético dimanaria da percepção de formas inarticuladas.” (Douglas, p.32 -grifo meu).

 A figura do ambíguo logo se caracterizaria enquanto um ponto de não articulação. Se  para o anômalo, ao identificamos como tal, investindo-o de poder e perigo, somos impelidos a exercer um poder em contrapartida, seja para discipliná-lo (reinserindo-o, agora ajustado, em nossa estrutura de classificação), seja para desclassificá-lo. Para o ambíguo, ou o reduzimos a um significado que faça sentido, ou somos atravessados pela sua força, ainda que tentemos miná-la.

Afinal, não são as feiticeiras ambíguas?

As feiticeiras em Macbeth, a famosa peça teatral de Shakespeare, se caracterizam justamente por essa ambiguidade, trariam elas bom ou mau presságio? Essa posição inarticulada das feiticeiras, gera tanto em Macbeth, quanto ao longo de toda peça uma duplicidade de sentidos, se em um momento é confirmado o desejo do protagonista em ser rei, em outro  a consolidação do seu desejo é desacreditada. A própria fala dessas personagens mágicas contém essa ambiguidade:

“Terceira Feiticeira – Tu engendrarás reis, embora nunca o sejas(…)” (Shakespeare, p.124).

 O próprio Macbeth se refere às feiticeiras, como “oráculos imperfeitos”, o que enfatizaria ainda mais esse caráter das personagens.

Identidade,  Poder e Pensamento

Não desejo me estender muito nesse post, tanto a obra de Mary Douglas, quanto as reflexões provocadas pela leitura, dão pano para manga. Todavia, destaco a relação implicada entre Identidade e Poder.  O filósofo Claudio Ulpiano já destacava que para Nietzsche (e Foucault, teóricos que uso como referência, e estou direcionando meus estudos nesse sentido)  o poder “não é uma substância, é uma relação. Então, onde houver relação e forças sempre emerge o poder. O poder não é uma unidade, não é uma coisa em si mesma. Não há o poder como unidade, só há poder como relação ― como essa relação de forças” (Ulpiano;  Nietzsche: a individuação e a identidade, ou a conquista da diferença; Aula de 20.08.1989)

Portanto, a relação entre as forças de classificação e desclassificação, constituem uma relação de poder da Identidade, conhecemos, identificamos para exercer um poder sobre aquilo e, como visto, a dificuldade na identificação implica em um aumento de forças em direção ao domínio daquilo/daquele desconhecido.

Nesse sentido, o próprio conhecimento tal como foi evidenciado, seria uma ilusão, temos uma ilusão do conhecido que se constituiria por uma disputa de forças. O objeto conhecido é aceito como real e se inscreve naquela estrutura de comportamento admissível, desde que tenha perpassado pelo crivo dessa disputa de forças.

“― Qual é a natureza humana? Nenhuma; não há natureza humana! A natureza humana é uma forma, gerada por determinadas relações de força. As relações de força geraram aquela forma. Basta haver a modificação dessas relações de forças, que aquela forma desaparece… imediatamente! Nada a sustenta: nada! Ela é precária por origem; porque qualquer forma é precária. QUALQUER FORMA É PRECÁRIA! A ameaça das forças é permanente; e essas forças não podem ser entendidas como leis ou princípios: elas são o reino do ACASO.”Ulpiano;  Nietzsche: a individuação e a identidade, ou a conquista da diferença; Aula de 20.08.1989)

 Diante do desconhecido, nos frustramos e desenvolvemos um maquinário de poder, de dominação, damos sedativos aos loucos e aos nossos delírios, nos tornamos indiferentes.  Ao investir em nossa capacidade de identificação somos capazes de normalizar “a norma não tem por função excluir, rejeitar. Ao contrário, ela está sempre ligada a uma técnica positiva de intervenção e de transformação, a uma espécie de poder normativo” (Foucault, p.43), incluímos o exótico às margens.

Sendo assim, o “poder não é ligado ao desconhecimento, mas que, ao contrário, só pode funcionar graças a formação de um saber, que é pare ele tanto um efeito quanto uma condição de exercício” (Foucault, p.45). Configura-se o lema do homem moderno, especialmente no período neoclássico, que perdura até hoje: conhecer para poder.

Bibliografia:

Claudio Ulpiano –  Nietzsche: a individuação e a identidade, ou a conquista da diferença; Aula de 20.08.1989

Foucault – Os Anormais

Mary Douglas – Pureza e Perigo

William Shakespeare  – Macbeth

***As referências de páginas não são, necessariamente, referentes às versões das obras ofertadas no post.

PS: Sobre o assunto Indico o vídeo do filósofo Luiz Fuganti->