Fragmento IV – Nota sobre monstruosidade e natureza

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“Red Embrace” de Agnes Cecile.

O monstro é a superação (Aufheben) da natureza, excedente natural (indeterminável) e não entidade sobrenatural (determinável). A monstruosidade está inscrita na natureza como sua realidade indefinível, sua “parte maldita”. A indefinibilidade do monstro o inscreve como impossível da natureza: “aquilo que não pode ser apreendido (begreift) de nenhuma maneira, que não podemos tocar sem nos dissolver, que é subordinante nomear Deus.” (Bataille, 2017, p.177 – grifos no original). Se recorremos à noção de milagre para nomear o efeito monstruoso dessa dialética da natureza trata-se apenas de uma subordinação do espírito, pela linguagem, ao determinável. A monstruosidade sendo manifestação do impossível no possível e do infinito no finito goza de uma temporalidade momentânea e indeterminável. O sacrifício é o arquétipo da comunicação monstruosa, esse tipo de “comunicação, pela morte, com um além dos seres” (idem) –  ponto extático de gozo. A monstruosidade não é um estado, mas o resultado de sua dissolução momentânea, da morte de um termo. A monstruosidade re-vela a divindade não sem deixar-nos vislumbrar seu barramento: “Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso” (Hilda Hilst).

Referências

BATAILLE, Georges. O culpado…. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
HILST, Hilda. Com meus olhos de cão. Rio de Janeiro: Globo, 2012.

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Fragmento III – Bataille com Van Gogh

“A vida é um efeito da instabilidade, do desequilíbrio. Mas é a fixidez das formas que a torna possível.”[1]

Fazer dos textos de Bataille meu dicionário particular impõe-me uma escrita cujo limite é, ao mesmo tempo, seu objeto e sua forma – moldura a ser transbordada e, portanto, subvertida enquanto tal pela ex-pressão de sua própria imagem, como nas molduras de Van Gogh:

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Moldura pintada pelo próprio Van Gogh. Quadro: Quinces, lemons, pears and grapes, 1887, Van Gogh Museum. Fotografado por Michelangelo.

Nota

[1] BATAILLE, Georges. O Culpado. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 51.

Fragmento II – Por Uma Antropologia do Fim

“Minha concepção é um antropomorfismo dilacerado.”[1]

 

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René Magritte, Monde invisible, 1954.

Não basta anunciar o fim dos tempos, é preciso vivê-lo, antropofagocitá-lo, engolfá-lo, sem o engodo fálico modernista, nacionalista, ou qualquer outro sentido do próprio. Nesse sentido, o único sentido que faz sentido é o foracluído – eterno retorno do Real (este que sempre lá nunca esteve). Ao fim uma antropologia que contrapontua o olhar de seu objeto a desejar, abjeta materialidade do limite.

Nota

[1] BATAILLE, Georges. O Culpado. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p.47.

 

Fragmento I – Escrever como pintores

Tudo se passa como nas pinturas de Bacon: ali mesmo onde se espera o encerramento da forma em uma identidade, algo move, mancha, transborda, tornando-a inacabada. A imagem que fica é o resto, fecundo registro do que resiste registrar-se.

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Study Of A Man Talking,Oil on canvas, 1981 – Francis Bacon

E se, sem pudor, registramos isso, escrevemos não a forma, mas seu simulacro encarnado em um objeto estranhamente desvelado, cru, como em Lucian Freud:

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Sunny Morning–Eight Legs, 1997 – Lucian Freud

Algo excede, está fora de lugar. Escapa ao quadro um objeto que nos inclui desde fora apenas para devolver-nos ao fora como lugar – antropofagia.